SÓ FALTA TIRAR DO PAPEL
Magno de Aguiar Maranhão
No Brasil, nenhum nível de ensino escapa ao problema, mas não estamos sós —
se é que isso serve de consolo: a Organização das Nações Unidas para a Educação,
Ciência e Cultura (Unesco) alerta que a meta mundial de “Educação para todos”,
fixada no início dos anos 90, e que deveria ser atingida até 2015, está ameaçada
devido ao déficit alarmante das peças-chave do processo ensino/aprendizagem.
A estimativa é de que, em dez anos, o planeta amargará uma carência de 15 a
30 milhões de professores. O órgão afirma que, praticamente, não há país imune
às pragas que têm afugentado os mestres das salas de aula, mas destaca que as
conseqüências mais funestas recairão sobre nações subdesenvolvidas e em desenvolvimento
— bloco no qual nos encontramos e ocupamos algumas das piores posições quando
o assunto é educação, mesmo se comparados a países com economias mais frágeis.
Isso nos obriga a sair do âmbito das análises estéreis para atacarmos os fatores
que, dentro das nossas fronteiras, têm transformado o magistério em uma das
carreiras mais frustrantes e desprezadas pelas novas gerações.
Nas creches e pré-escolas, cuja expansão deve ser prioritária, já que podem
amenizar os efeitos da pobreza sobre a infância brasileira, serão necessários
mais 139 mil professores até 2006. No ensino médio, são necessários 235 mil
e, no segundo ciclo do ensino fundamental, 476 mil — nos últimos anos, porém,
formamos somente 457 mil nas licenciaturas, acumulando o déficit de 250 mil.
Há disciplinas em que o problema parece incontornável: deveríamos ter 55 mil
professores de Física e outro tanto de Química para atender à demanda pelo ensino
médio; no entanto, entre 1990 e 2001, registramos 7.216 graduados em Física
e 13.559 em Química. E nem todos optam pelo magistério. Outras carreiras, com
exigências semelhantes quanto à qualificação, oferecem, se não salários maiores,
ao menos condições de trabalho melhores.
Quanto ao ensino superior, sabe-se que as universidades federais reclamam oito
mil vagas que deveriam ser preenchidas por concurso público, mas são ocupadas
por professores substitutos.
A discussão vai além: posturas inflexíveis do governo, como a exigência de dedicação
exclusiva dos docentes, que, assim, sentem-se alijados do mercado de trabalho
e “condenados” perpetuamente à mesma remuneração, desestimulam os que possuem
potencial para a carreira acadêmica.
O ensino superior, porém, tem especificidades que merecem atenção especial.
Neste momento, as atenções se concentram nas lacunas formadas após a implantação
das políticas de universalização da educação básica, que não parecem ter levado
em conta o imperativo de aumentar o número de educadores, nem as graves questões
com que as escolas se defrontaram ao receber crianças e jovens vindos de camadas
sociais até então excluídas.
Certamente, o desinteresse pela docência está associado aos salários injustos.
Contudo, estancar o debate neste ponto seria um equívoco. Todos sabemos que
um emprego, mesmo que não ofereça uma remuneração vultosa, mas garanta ao indivíduo
o atendimento a suas necessidades, formação continuada e boas condições de trabalho
pode ser mais sedutor que aquele que oferece um alto salário mas transforma
em um tormento o cotidiano do profissional.
No caso dos professores, a insatisfação gerada pela quantia impressa no contracheque
está aliada à insatisfação pela indefinição do seu papel nesta fase de reformas
atropeladas, em que a ordem é educar as massas e eliminar desigualdades sociais
seculares, embora ninguém saiba como fazer isso em um escola desprovida dos
recursos imprescindíveis à empreitada.
Esta nova escola pública — a que promove a igualdade, transmite valores éticos
e morais, incute a noção de direitos humanos e é capaz de eliminar uma antiga
herança de ignorância e desprezo pela educação — existe, sim, em diretrizes
curriculares, discursos e propostas acadêmicas.
Não sabemos como nem quando será transplantada para o Brasil real.
MAGNO DE AGUIAR MARANHÃO é integrante do Conselho Estadual de Educação do Rio
de Janeiro.
Fonte: O Globo (15/03/04, página 7).